A leveza e a atmosfera romântica definem os contornos do filme Brilho de uma paixão (Bright Star, 2009). Dirigido pela diretora neo-zelandesa Jane Campion, o filme concorreu a Palma de Ouro em Cannes, prêmio este que ela havia ganho em 1993 com O Piano. Com o enredo que gira em torno da paixão do poeta inglês John Keats por Fanny Brawne, os atores Ben Whishaw e Abbie Cornish esbanjam uma sensualidade delicada que vai se desenvolvendo em meio aos gestos castos e derramados tão típicos do Romantismo. O movimento, que teve boa parte de suas características desenhadas ainda no Pré-Romantismo, tem uma essência (no tocante ao Brasil que se identifica mais com a segunda geração romântica) que já pode ser encontrada no Sturm und Drang, ou Tempestade e Ímpeto, nascido na Alemanha. Este levantava a bandeira contras as regras e as imposições do Classicismo, traço este que será adensado no Romantismo. O conceito de “gênio” –fundamento da criação poética, nas doutrinas do Romantismo – é uma força alheia ao domínio da razão, insusceptível, de ser submetida a preceitos, fato que o liga ao Sturm und Drang. Características marcantes do estilo romântico brotam no terreno dos primórdios do movimento: valorização do sentimento (o coração é a fonte por excelência dos valores humanos); a melancolia, o desespero, a angústia, a tristeza irremediável, a agitação sombria, a morte, os dolorosos presságios, etc.
O filme em questão trabalha com todos estes fatores, metaforizados nos gestos, nas falas e nos cenários. As cenas construídas ao ar livre, em tardes iluminadas por um céu claro e um sol pálido são reforçadas por momentos escuros e frios, onde a chuva e a neve tomam conta da tela. O amor casto e respeitoso que Keats nutre por Fanny é representado em meio aos anseios de um poeta que está começando a escrever. Numa das cenas do filme alguns personagens discutem a poesia de Keats, atraindo a atenção de Fanny, que logo após ler o seu "Endymion”, e principiando um interesse amoroso, pede que ele lhe ensine poesia. A trilha sonora que conta com a “Serenade in B flat, K361, Adágio” de Mozart é cosida por momentos em que entramos em contato com trechos da poesia de Keats.
Acredito que esta é uma excelente ferramenta para o professor que deseja trabalhar as particularidades formativas do Romantismo, relidas por um diferente recurso de mídia: o cinema. Por vezes, a aula feita no quadro e giz ou apenas explanatória torna-se cansativa e, algumas vezes, não abarca a multiplicidade de um assunto. Sempre consegui memorizar mais facilmente uma história, após vê-la transformada em linguagem cinematográfica, salvo, é claro, casos como as adaptações de alguns livros que deturpam a essência (digo, a informação estética) dos mesmos. Enfim, esta é uma dica não só para professores de literatura, mas também para aqueles que gostam de cinema. Aqui no Brasil, pesquisando alguns sites sobre Keats, descobri que Augusto de Campos (sempre ele, o incansável) traduziu o poeta inglês. A seguir, um trecho do "Endymion" por Augusto de Campos:
Endymion (trecho)
O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.
(KEATS, John. "From Endymion" / "Do Endymion". In: CAMPOS, Augusto de. Byron e Keats: Entreversos. Traduções de Augusto de Campos. Campinas: Editora Unicamp, 2009.)
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