Há beleza e poesia de extrema qualidade na Bíblia. Estes versos que compõem o Salmo 19, um dos livros dividido na ala dos chamados poéticos, são o maior exemplo disso. Uma vez, um tio meu que é simpatizante do budismo e outras crenças disse: “Não é preciso ler a Bíblia para encontrar Deus, ele está na natureza, isto é muito simples”. Pois é, o caso é que a mesma já anunciava isso claro e patentemente. Os versos iniciais deste Salmo provam o que digo: “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos /Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite /Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.” Como podemos ler, a natureza espelha a grandeza de Deus e de suas obras. Aqui ele é um exímio arquiteto, produtor do firmamento e do equilíbrio que orienta todas as coisas, a fala da natureza é sua voz: “A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol /O qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho /A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada se esconde ao seu calor.”
Nos versos seguintes o sol é comparado à lei de Deus, mimetizado na mesma figura da linha imaginária, o desenho da terra. A voz de Deus refaz os contornos de toda a terra. Nos céus há uma tenda para o sol, ele é um noivo (que grande metáfora!) que sai do seu leito de núpcias, alegre como um herói e percorre o caminho traçado pela voz de Deus: aquele perfeito que vai de uma extremidade à outra e alcança todos os recantos da terra, já que “nada se esconde ao seu calor”. Em seguida de forma mais patente, substituindo a latência dos versos anteriores que une as duas figuras (o sol e a voz de Deus), o Salmo anuncia: “A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do SENHOR é fiel, e dá sabedoria aos símplices. /Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro, e ilumina os olhos” Os “preceitos divinos alegram o coração”, assim como o sol “alegre” que percorre o céu. O verbo “iluminar” referencia, do mesmo modo, o tropo do sol, que derrama “o calor”, iluminando ao mesmo tempo. A cor “amarela”, sugestivamente utilizada para representar a luz, aparece fortemente nos versos que seguem, amarrando mais uma vez as figuras supracitadas: “O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente. /Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos favos.” Aqui, o “ouro” e o “mel” sugerem o sol num nível metafórico, provando o rigor construtivo dos versos bíblicos. Infelizmente eu não conheço o hebraico, nem o grego bíblico para saber com foi escrito exatamente no original, contudo, o tradutor (mesmo que não conhecesse a ideia de traduzir como “transcriar” a informação estética do original, presente nas traduções de Ezra Pound e organizada nas teorias haroldianas de tradução) foi poeta, assim como os Campos queriam, capturando a riqueza poética contida nas palavras. Assim pautada, defendo o trabalho artístico presente nestes versos do Salmo 19.
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